4º Módulo do projeto abordou fundamentos da teoria de Marx
“Os filósofos se limitaram a interpretar o mundo de diferentes maneiras e cabe agora transformá-lo. A filosofia em Marx é uma filosofia transformadora”. Com estas afirmações a professora da UFRGS, Maria Aparecida Grandene, iniciou sua participação no 4º Módulo do Diálogos para Ação. A atividade foi ministrada na Casa dos Bancários e reuniu dirigentes e delegados sindicais de todo o Estado, na manhã desta sexta-feira.
Segundo Maria Aparecida, existe uma grande resistência do Capitalismo, que sobrevive às crises, se reorganiza e sufoca qualquer alternativa. “Nas considerações de Marx encontramos um grande destaque à vitalidade do capitalismo. Marx diz que o destino do capitalismo é ser superado ele traz uma lei de tendência, prova esta tendência e aceita que existem forças a favor e as chamadas forças contra. Nós temos um lento passo da história e uma longa vida do capitalismo através das crises”, observa a professora.
A docente explica no atual estágio do Capitalismo, a própria economia se impõe como uma filosofia hegemônica em todos os campos e a principal regra a seguir é “menor custo, maior eficiência”. “A economia se coloca como uma esfera não-ideológica e temos um ‘admirável’ mundo mercadológico global. Dentro deste contexto, a própria ideia de transformação social radical passa a ser um sonho impossível. Estamos imersos no mundo, numa suposta realidade que propicia isso. Mas como superar o modo de produção capitalista? Se a transformação é possível, a filosofia de Marx pode nos trazer respostas”, observa.
Ao longo de sua explanação, Maria Aparecida destacou a contradição como inerente ao real e motor da história, contrapondo esta concepção com o pensamento da identidade e abordagens a-históricas. Em seguida, a professora falou sobre o Novo Materialismo ou também denominado Materialismo Histórico, elaborado por Marx a partir de críticas às teses sobre Feuerbach. Outros temas abordados pela palestrante foram o conceito de modo de produção; a economia como alienação da vida e as possibilidades além do Capitalismo.
A dialética Marxista
A dialética de Marx vê o real como um processo de transformações e contradições, através do qual a história humana se processa e evolui. “Esse processo dialético é responsável por formações históricas e diferentes maneiras pelas quais o homem produz a sua vida. Quando Marx se coloca com esta visão de história, como um processo contínuo que se compõe através da superação de diferentes estágios de sociedade humana, ele se coloca numa linha oposta a todos aqueles pensadores que são conhecidos pelas definições de identidade”, explica.
De acordo com a professora da UFRGS, há dois tipos de filósofos, são os pensadores do movimento ou da contradição – que vêem a realidade como um processo de ser e não ser, ou aqueles pensadores da identidade, que afirmam que ‘só o ser é’. Ambos surgiram na Grécia Pré-Socrática, com Eráclito e Parmênides. “O Marx está junto com os pensadores da contradição, entre os quais remotamente encontramos Eráclito e, mais recentemente encontramos Hegel. Para Marx, há uma simbiose entre razão e realidade. Aí temos a sua âncora, neste pensamento que leva ao movimento. É por isso que se posiciona como um pensador da história”, afirma.
A professora explica que o Materialismo Histórico é outra caracterização da filosofia marxista. “Para Marx, a realidade não é apenas objeto da intuição, mas uma atividade humana sensível. O problema do materialismo até então era não apresentar o objeto como produto do próprio fazer do sujeito, separando a atividade prática da atividade teórica. Para Marx a essência humana não existe separada do seu suporte completo, que são os homens e suas relações sociais. O homem é um ‘vir a ser’ e está sendo posto pela história”, enfatiza.
Conforme Maria Aparecida, o modo de produção da vida material condiciona o processo em geral da vida social. “A produção da vida é para Marx um processo social, pelo qual os homens estabelecem relações entre si. O modo de produção é o conjunto da infraestrutura econômica da sociedade com a superestrutura política e ideológica. Os homens são os produtores de suas representações e suas ideias, mas os homens reais e ativos”.
Pensando o Capitalismo
A interpretação da economia como alienação da vida é um tema constante na filosofia de Marx. Segundo a palestrante, a realidade econômica no Capitalismo forma outro mundo que é diferente da realidade própria do homem. “Para Marx, a alienação significa constituir outra realidade. Na economia, a relação dos indivíduos não exprime mais a determinação vital de sua práxis interior. Alienar-se à economia quer dizer assumir a uma natureza de empréstimo, estranha a sua natureza original que se encontra falsificada e perdida”, ressalta Maria Aparecida.
A professora explica, que em um plano está a vida com suas leis e determinações, mas em outro plano fica a economia, que se apropria da própria natureza original. “Com as relações econômicas do Capitalismo, o homem está alienado de si mesmo. O mundo das relações econômicas toma para si todas as determinações da própria vida. Nesta realidade econômica o que existe de relação ideológica mais destacada é o Direito, que diz que as relações são consagradas através de contratos entre indivíduos livres. Só que para Marx a vontade nunca é livre”.
Maria Aparecida salienta que no momento em que o trabalho se torna mercadoria, o trabalhador aliena sua própria vida, passa a viver a vida determinada pelo modo de produção capitalista. “Ele vai se inserir em um mundo que está organizado de forma estranha a ele. Ao vender seu meio de vida o trabalhador terá que habitar o mundo em que seu meio de vida está inserido, mas este não é o mundo de sua subjetividade”.
Teoria da Abstração ou Alienação em Marx
Segundo a professora, vivemos num mundo que tem pouco a ver com a realidade da vida nas suas características básicas. “A alienação é o conceito de troca de trabalho por outra coisa. Toda economia política nada mais é do que esta esfera ideal onde tudo funciona, há leis objetivas de oferta e procura e o ser satisfaz suas necessidades a partir da escassez. Marx identificou a concepção deste mundo mostrando que saímos da mercadoria para o trabalho humano e para o trabalho abstrato. O homem já não habita o seu mundo, mas o mundo do capital. Trata-se de uma abstração e é neste mundo ideal onde não se reconhece, que o trabalhador se movimenta.
Para além do Capitalismo
Pela teoria Marxista, as relações de produção burguesas são a última forma de produção social e a constituição do homem enquanto sujeito, só poderá ocorrer no socialismo. “Para Marx o capital é o sujeito que domina e o operário capitalista é o suporte. A propriedade individual é a negação da propriedade capitalista. Trata-se da propriedade que foi rompida com o ciclo orgânico. Quando se trata de um filósofo realmente grande, como Marx, a verdadeira pergunta é: _ O que nós somos? Como nossa época aparece aos olhos dele? A única maneira de compreender a realidade do novo é analisar o mundo pela lente do que aparece como eterno no velho”, questiona a professora.
* Imprensa Fetrafi-RS
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